segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Os direitos das vítimas, a odisséia das vítimas

ROSELI RAQUEL RICAS

Todos nós, de uma forma ou de outra, passamos por constrangimentos em várias circunstâncias da vida. A condição de vítima de furtos e assaltos é bem corriqueira. A vítima de um crime passa por humilhação e tanto estresse que perde a noção da realidade. Fica em estado de choque! Afinal foi ultrajada em sua integridade física e moral e normalmente ficam relegadas ao sofrimento, sem nenhum apoio institucional, e sofre danos psíquicos, físicos e sociais, sem encontrar formas de amenizar sua dor.

Você certamente passou por essa situação e vai concordar que pior que isso é o constrangimento para conseguir registrar o boletim de ocorrência. A delegacia virtual é literalmente virtual! Não funciona! Enfrentamos várias ineficiências. O sistema não funciona, não tem papel, não tem gasolina para viatura, não tem delegado presente, o escrivão foi almoçar, e o agente está ocupado fumando o seu cigarrinho.

O pouco caso dos policiais na atenção dispensada às vítimas é desanimador. O moral abalado cai de uma vez. A sensação de impotência e a revolta tomam proporção que podem afetar o equilíbrio de qualquer um. A vítima tem direito de passar por humilhações várias vezes e não reclamar. Afinal ela tem o sagrado direito de chorar e pedir à Deus que acalme seus ânimos para que também não se torne uma criminosa.

A evolução do reconhecimento e proteção dos direitos humanos é um fato que deve ser cada vez mais aprimorado. Porém, é inadmissível imaginar que essa proteção é direcionada especialmente para quem não respeitou o limite dos seus atos e tirou, sem motivação, os direitos mais importantes de alguém: a vida, o equilíbrio emocional, o direito de ir e vir, o patrimônio lícito.


Aos criminosos é assegurado direito ao auxílio reclusão, médico, dentista, psicólogo, boa comida, etc. além de entidades em sua defesa. Vários países adotam critérios de proteção às vítimas. No Brasil, ainda está incipiente essa discussão pela classe política. Existe um pequeno avanço apenas em relação à proteção das testemunhas, resultando uma situação desumana para as vítimas.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Nem Pink Floyd explica


Hugo Fernandes

“Não precisamos de nenhuma educação. Não precisamos de nenhum controle de pensamento”. Os dizeres eram entoados, no fim da década de 70, por uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, o Pink Floyd. A clássica canção “Another Brick In The Wall” (Um Outro Tijolo no Muro, em português), põe em discussão um dos alicerces da nossa sociedade, a educação.

A música faz uma critica ferrenha a escola e a sociedade inglesa daquela década. Para os músicos britânicos do Pink Floyd, os colégios não passavam de um instrumento de formação profissional e intelectual dos cidadãos, fazendo com que as crianças, desde cedo, perdessem sua identidade própria e passassem a pensar como sociedade.
Cerca de 30 anos após a composição deste clássico musical, o estudo é indispensável e a diplomação virou sinônimo de melhores condições de vida. No contexto atual, quem não estuda está à margem da sociedade. E para ser inserido no mercado de trabalho é imprescindível ter qualificação profissional. Mas, se você ainda segue os ideais Pink Floydianos, uma ótima oportunidade chegou à tona.

No mês de junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) deu provimento a um recurso extraordinário, interposto pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo, invalidando a obrigatoriedade da exigência de diploma para exercício da profissão. Ou seja, você agora pode ser jornalista. Qualquer um que não sabe bem o que quer da vida, poderá se aventurar nas páginas dos jornais.

Os ministros do STF não perceberam que a exigência do diploma não limita o direito de expressão de nenhum cidadão, mas sim assegura dentro dos princípios constitucionais a liberdade de profissão, garantindo seu livre exercício “desde que atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer” (CF, art. 5º, inciso XIII).

A obrigatoriedade do diploma funciona como um filtro. Possibilita uma espécie de triagem que visa a construção de um jornalismo ético, comprometido com a verdade e mais responsável na divulgação dos fatos. Se o arquiteto para exercer a sua profissão precisa ter cursado a faculdade de arquitetura, o médico a de medicina, o advogado a de direito, por que querem que só o jornalismo seja exercido sem que o seu profissional tenha a formação superior? Por que o interesse em que o trabalho do jornalista seja exercido por qualquer um?

Fomos comparados a cozinheiros por aqueles briosos, que também podem matar uma pessoa preparando uma comida indigesta. Porém, o que não caiu bem no estomago dos profissionais da imprensa foi a decisão do STF. Indigesto mesmo é aceitar uma categoria se tornar um amontoado de gente. Nem Pink Floyd explica.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Apoio de Ciro a Aécio é "dança pré-eleitoral", diz Berzoini


Marcela Rocha


O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) almoçou com o governador mineiro Aécio Neves (PSDB). Ambos pleiteiam candidatura à presidência da República. Mas, antes do almoço, o cearense disse que recuaria caso o mineiro fosse o escolhido do tucanato para concorrer ao Planalto. O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), minimiza a atitude de Ciro e acredita que isto não passa de "dança pré-eleitoral".

- Assim como tem a dança pré-nupcial entre os animais, tem uma dança pré-eleitoral na política. Muitas vezes, parece ser uma coisa, mas é outra. Nossa conversa com o PSB é muito madura. Eu, pessoalmente, não acredito que haja pretensões as quais devamos atribuir maior relevância.

Antes de almoçarem no Palácio das Mangabeiras, nesta terça-feira, 17, eles participaram de uma agenda pública juntos, durante o lançamento do Portal "O Brasil tem Jeito".

O petista retoma a "ótima relação" que seu partido mantém com Ciro. "As declarações, nesse momento, significam, muitas vezes, apenas gestos, demonstração de cortesia", minimiza. "Ciro sempre se declarou um adversário do projeto neoliberal", diz em referência a uma possível colaboração de Ciro ao PSDB.

- Isso faz parte de uma movimentação pré-eleitoral que pode ter outros objetivos subjacentes que nós não temos condição de avaliar neste momento. Esse tipo de encontro, para mim, não tem relevância nenhuma - conclui.

A pedido do presidente Lula, Ciro transferiu recentemente seu domicílio eleitoral para São Paulo. Com isto, o deputado pode ser candidato tanto ao governo paulista, desejo petista, quanto candidato à presidência, proposta mantida por ele e seu partido até então.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Cobras do Verissimo



Luis Fernando Verissimo desenhou As Cobras durante quase trinta anos, para vários jornais. Em 1997, ao completar 60 anos, o escritor concluiu que "não ficava bem um sexagenário desenhando cobrinhas" e as aposentou. Em 2006, criou para o lançamento de Terra Magazine uma série de tiras inéditas (que podem ser vistas no link abaixo), e permitiu, generosamente, que fossem garimpadas de seu acervo pessoal, algumas Cobras clássicas, que Terra Magazine reedita a cada segunda-feira.

A seleção é difícil pela quantidade e deliciosa pela qualidade. Ressurgem assim personagens antológicos como Dudu o Alarmista, Queromeu o Corrupião Corrupto, as lesmas Flecha e Shirley, e séries como as Cobras "no Espaço", "na Praia" e "frente ao infinito".

São personagens criados no início dos anos 70, quando Veríssimo escrevia diariamente para o jornal Folha da Manhã, de Porto Alegre. A idéia era "um desenho rápido, que não desse muito trabalho e substituísse o texto da minha coluna, nas edições de sábado", explica o autor. "Por que cobras? Porque cobras é fácil de desenhar. Cobra é só pescoço e não tem mão."

Além das Cobras, o escritor também se aventurava pelo cartum, que sempre considerou "a forma mais concisa, e mais difícil, de humor". Em seu primeiro livro, O Popular (Editora José Olympio), de 1974, as crônicas eram entremeadas com cartuns e quadrinhos.

Três anos mais tarde, já cult na imprensa gaúcha, As Cobras apareceram pela primeira vez em livro junto com outros desenhos (As Cobras e outros Bichos, L&PM, 1977). Na introdução ao livro, Verissimo afirma que já desenhava antes de escrever, mas faz uma avaliação bem-humorada de seus dotes artísticos:

"Tenho um problema curioso para um desenhista. Não sei desenhar. Isto não me impede de insistir com o desenho, apesar dos conselhos de amigos, das indiretas da família e de telefonemas ameaçadores. Insisto, em primeiro lugar, por conveniência. Não digo que uma imagem valha mil palavras, mas umas 500 - o necessário para encher uma coluna de jornal - vale. Qualquer cronista diário daria a sua mão direita para poder desenhar em vez de escrever, de vez em quando, se fosse canhoto."

Exagerado na auto-crítica, claro. As tiras das Cobras têm a concisão dos melhores humoristas e a linguagem certeira de um dos textos mais admirados do país.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Chefão das Drogas, El Chapo bate Sarkozy e Medvedev na lista dos mais poderosos da Forbes

Wálter Fanganiello Maierovitch

El Chapo

Ontem, autoridades européias e especialistas no fenômeno das drogas trocaram “figurinhas” sobre a sangrenta e fracassada “war on drugs” (guerra às drogas) no México.

Na mesa de reuniões estava o exemplar da revista Forbes, que acaba de colocar Joaquín Guzmán, vulgo El Chapo, na relação das personalidades mais influentes do mundo. Ele aparece na frente do presidente francês Sarkozy, para se ter idéia da sua força de influência.
Como este blog Sem Fronteiras de Terra Magazine informou no dia 11 de outubro passado (confira post abaixo: Os Narcos de Cristo), Joaquín Guzmán, chefe do cartel mexicano de Sinaloa, é tido, para os 007 da CIA e da DEA, como o narcotraficante mais rico do planeta.

Para a revista Forbes, que desde 1917 trata de negócios, finanças e economia, El Chapo tem mais de US$ 1 bilhão em caixa. E o seu poder, como já informado por este blog, aumentou em razão da recente aliança com o cartel conhecido por “La Família Michoacán”, ou seja, com os “Narcos de Cristo”.

Joaquín Guzmán, em Chapo, ocupa o 41º. na relação da revista Forbes.

Além de Sarkozy, El Chapo está na frente do atual presidente da Rússia, Dmitri Medvedev.

No topo da lista, como celebridade mais influente, –e aí pelos dotes políticos e não financeiros–, está o presidente Barack Obama.

El Chapo, num esforço hercúleo da norte-ameriana DEA (agência de inteligência antidrogas) e de policiais honestos mexicanos, foi preso em 1993, com acusações de mandante de homicídios e narcotráfico internacional.

Apesar da vigilância dada como especial e em presídio rotulado de segurança, El Chapo fugiu em 2001.

Para o presidente mexicano, Felipe Calderon, o chefe do cartel de Sinaloa está escondido nas montanhas do norte do país.

Especialistas contestam a afirmação de Calderon, pois um chefão do porte de El Chapo nunca está distante da sua fortuna, “dos seus tesouros”, para usar um jargão da polícia mexicana.

PANO RÁPIDO. No elenco da revista Forbes aparecem 67 nomes e o diretor da sua redação explica: “ O que conta não é tanto a popularidade, o cargo oficial ocupado, mas o grau de influência”.

Só para registrar: os supremos ministros Gilmar Mendes e Marco Aurélio de Mello, que no julgamento do caso Battisti revelaram o tamanho dos seus “egos”, e a esquecer o ensinamento de Camões de “elogio em boca-própria representar vitupério”, não estão listados pela Forbes, para minha surpresa.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Na homenagem a José Alencar, estilos opostos de Lula e Serra


Ricardo Kotscho

Foi mais ou menos como se uma orquestra sinfônica e uma escola de samba se apresentassem na mesma noite, no mesmo palco, para a mesma platéia. Deu-me esta impressão ao ouvir os discursos do presidente Lula e do governador Serra durante a homenagem prestada pela Fiesp, na noite desta segunda-feira, ao vice-presidente José Alencar, concedendo-lhe o título de presidente emérito da entidade.

Formal, respeitoso e correto, Serra, que falou primeiro _ logo após a homenagem feita a José Alencar pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, e da exibição de um belo filme sobre a sua vida _, arriscou raros improvisos em seu breve discurso, destacando o caráter empreendedor de José Alencar e suas ligações com São Paulo. Lembrou dos poucos encontros que os dois tiveram ao longo da carreira e do fato de que a cidade onde o homenageado nasceu chamava-se no começo São Paulo de Muriaé. O santo ainda é o padroeiro da cidade.

Ao final, recebeu os aplausos protocolares de quem acabou de ouvir uma afinada orquestra alemã. O contraste com Lula ficou claro logo nas primeiras palavras do presidente, na hora de ler a chamada nominata, lista de autoridades presentes que os oradores recebem da assessoria. Ao contrário de Serra, improvisou uma saudação a alguns dos presentes e fez a primeira das muitas brincadeiras da noite, contrapondo-se ao governador, que leu a lista completa:

“Como não sou mais candidato, nem preciso cumprimentar muita gente…”

A platéia riu, mas Serra não achou muita graça, e assim permaneceu, impassível, durante o resto da fala toda improvisada de Lula, que arrancou lágrimas, risos e aplausos em cena aberta, várias vezes, num dos discursos mais inspirados e emotivos da sua já longa carreira de palanqueiro.

Ao final, foi longamente aplaudido de pé pela platéia de empresários e políticos, como se fosse um Noca da Portela saindo do Sambódromo, enquanto dava um interminável e apertado abraço em José Alencar, que chamou de sua “cara-metade” na política.
Desde a hora em que chegou, com o habitual atraso, ao 14º andar da Fiesp, onde as autoridades se encontraram na sala da diretoria da entidade, antes de descerem juntas para o auditório no subsolo, Lula parecia mesmo inspirado naquela noite. Falando mais do que de costume, estava de muito bom humor depois de ter passado o dia todo em São Paulo.

Na rodinha dos que aguardavam a chegada do presidente junto ao vice José Alencar e sua mulher, dona Mariza, o prefeito são-paulino Gilberto Kassab tirava uma onda com o governador palmeirense José Serra, que estava inconformado com o gol anulado de Obina, na derrota contra o Fluminense, em que seu time perdeu a liderança do campeonato no domingo.

O assunto quente da hora era a decisão da CBF de tirar o juiz Carlos Eugênio Simon do restante do Campeonato Brasileiro, reconhecendo que ele errou feio. “Então tem que cancelar a partida!”, protestou Serra, diante de um feliz Kassab, que só ria e balançava a cabeça como quem diz: ninguém mais tira este título do nosso São Paulo. O governador me contou que, para seu desgosto, tem um neto são-paulino, que estuda na mesma classe da minha neta, que é palmeirense.

Para se vingar da minha alegria de são-paulino, Serra não perdeu a chance de tirar uma casquinha: “Nossa, como você está ficando gordo!” Acho que é de tanto comemorar títulos, pensei comigo… Mas, desse jeito, ele não vai conquistar o voto dos gordos…

Feliz da vida estava Josué, o único filho homem de José Alencar, que assumiu o comando do império da Coteminas quando o pai resolveu entrar na política, no final dos anos 1990, para pouco tempo depois se tornar o companheiro de chapa de Lula, em 2002, mas ele não se empolgou nem um pouco com a idéia do pai de se candidatar de novo no ano que vem.

Contei-lhe como foi a conversa de Alencar com Lula no aniversário do presidente, sábado retrasado, na Granja do Torto, em que seu pai revelou os planos de se candidatar a senador por Minas. Josué parecia não acreditar muito nesta história. Preferiu falar da fantástica recuperação de Alencar, desde a última vez em que nos encontramos no Hospital Sírio-Libanês. “Você viu? Nem os médicos acreditavam nisso…”.

Quando Lula chegou, logo as autoridades continuariam a conversa a portas fechadas na sala de Skaf. Desci para o auditório, mas foi difícil chegar lá e conseguir um lugar na platéia apinhada de excelências vindas de todas as latitudes, muita gente em pé. Depois de tudo o que Alencar passou em suas 15 cirurgias, só o fato de encontrá-lo novamente firme e forte, sorrindo o tempo todo, justificava o clima de alto astral que contagiou toda a cerimonia.

Sem pressa, Lula e Alencar ainda foram ver as fotos do homenageado no saguão da Fiesp e, para cada uma, claro, o vice tinha uma história para contar, parando naquela que o mostrava fazendo pose como jogador do Nacional, o time da sua cidade.

Último a falar, por iniciativa do presidente Lula que, pelo protocolo, sempre deve encerrar as cerimonias em que está presente, José Alencar passou quase meia hora lendo a nominata inteira (quem foi esse assessor?) para não esquecer de nenhum dos presentes, e eram mais de 500.

Começou lendo um discurso, prometeu ser breve, mas lá pela metade fez como Lula e passou a falar de improviso, também alternando momentos engraçados com outros mais dramáticos da sua vida. Fez uma veemente defesa da liberdade de mercado, mas com responsabilidade social e igualdade de oportunidades, e não deixou barato, repetindo seu refrão na hora de falar do bom momento da economia brasileira: “Não é graças aos juros altos, não. É apesar deles…”.

Tanto Lula como Alencar devem ter repetido um milhão de vezes como se conheceram, depois de já veteranos em suas respectivas carreiras, na festa de 50 anos de vida empresarial do vice, em Belo Horizonte, no final de 2001, mas até hoje os dois se emocionam ao contar como foi.

“Encontrei meu vice naquela noite”, disse Lula, lamentando que isso não tivesse acontecido antes. “Foi uma dádiva de Deus ter te encontrado. Quem sabe se a gente tivesse se encontrado antes, eu não teria perdido tantas eleições…”.

Como se tivessem combinado, Alencar também gastou boa parte do seu discurso contando como surgiu a parceria política dos dois, que logo se transformaria numa grande amizade. Lula atribuiu a Alencar metade da responsabilidade pelos êxitos do governo. Com sua habitual humildade, Alencar deixou por menos:

“Ninguém vota no vice-presidente. Vota no titular. Eu não procurei atrapalhar nas campanhas e acho que não atrapalhei porque ganhamos duas vezes…”

Para mostrar que estavam bem de saúde e com pique, Lula garantiu, de brincadeira, que os dois tinham fôlego para mais cinco anos de governo, mas logo acrescentou que não era o caso, chegou a vez de outros candidatos. Além de Serra, estavam presentes à homenagem os prováveis presidenciáveis Dilma Roussef e Ciro Gomes. O governador Aécio foi anunciado na nominata de Alencar, mas eu não o vi por lá.

Aconteça o que acontecer, ganhe quem ganhar em 2010, a verdade é que um estilo de fazer política e uma dobradinha improvável como a do metalúrgico Lula com o grande empresário Zé Alencar estão fechando um ciclo que, muito provavelmente, não irá se repetir tão cedo.

O estilo de Dilma, Aécio e Ciro, pelo menos até aqui, com seus discursos recheados de números e de razão, está mais para o de Serra do que para Lula. E ainda não surgiu um novo Alencar no horizonte da cena eleitoral de 2010, a primeira sem Lula candidato desde a redemocratização do país.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A boa cautela de Lula

Alon Feuerwerker

Se não nos convidaram para o banquete, soa um pouco excessivo que nos intimem a participar de igual para igual na hora de rachar a dolorosa.

É bom que o presidente da República esteja cauteloso nas discussões sobre o papel do Brasil na Conferência do Clima. E é curioso que os críticos do "protagonismo a qualquer custo" sejam agora os primeiros a exigir de Luiz Inácio Lula da Silva que coloque o Brasil na linha de frente das medidas contra o aquecimento global. É a dança da política.

O debate está claro desde o começo. Se o aquecimento global é mesmo um problema grave, e se deve ser enfrentado globalmente, é preciso saber para quem irá a conta. O lógico será repassá-la aos que, até o momento, mais se beneficiaram do progresso humano. Se é mesmo verdade que o mundo não suportaria a globalização dos padrões europeu e americano de consumo, que os americanos e europeus se contenham, para começo de conversa.

Qual é o problema? É que países como a China e o Brasil estão pelo meio do caminho. Não podem ser considerados tecnicamente "subdesenvolvidos", mas ainda têm milhões de pobres para colocar no mercado, alimentar, vestir, educar, divertir. O Brasil não é a Noruega, ou a Suécia, onde tudo está mais ou menos resolvido. Temos um país a construir. Então, ou bem encontra-se um jeito ambientalmente correto de fazê-lo, ou paciência.

Se não nos convidaram para o banquete, soa um pouco excessivo que nos intimem a participar de igual para igual na hora de rachar a dolorosa. Também porque as bolas estão invertidas. Pedem-nos o sacrifício à vista, com a promessa de benefícios a longo prazo. Exigem que renunciemos à expansão da fronteira agrícola, sem a garantia de que o aumento de produtividade será capaz de atender à demanda explosiva por comida numa sociedade em que, finalmente, os pobres começaram a comer direito.

Isso significa que nada temos a ver com o desafio? Ou que não podemos contribuir para resolvê-lo? Negativo. Apenas é preciso cautela. Daí a razoabilidade da posição de Lula e da candidata dele à Presidência, Dilma Rousseff.

Até porque -e infelizmente- as opções a nós propostas são no mínimo nebulosas. A primeira é exatamente congelar a expansão da área plantada, com a premissa de aproveitar melhor a área já desmatada. É um debate bonito de se fazer no carpete e no ar-condicionado, mas enfrenta problemas na vida real. E olhem que Lula deu sorte, ao ver fracassar seu projeto delirante de transformar o etanol em combustível planetário. Tivesse dado certo, a soja e os bois estariam em marcha batida rumo ao norte, e Lula não poderia passar nem na porta do encontro de Copenhague.

Os créditos de carbono, outro ponto da pauta, não parecem ser capazes de dar conta do desafio. É uma conta que não fecha. Europeus e americanos pagam para que preservemos as nossas florestas. Ótimo. Mas ninguém come dinheiro, ou se veste com dinheiro, ou mora em casas de dinheiro. O dinheiro serve para comprar coisas. Que precisam ser produzidas. E que portanto implicam custo ambiental. Com dinheiro na mão, o pobre vai querer consumir. E alguém vai ter que produzir.

É um debate simples? Não. Temos as nossas próprias responsabilidades no assunto? Temos. Mas não implica que precisemos estar na linha de frente a qualquer custo. Os compromissos que vamos assumir precisam estar subordinados, em primeiro lugar, ao nosso projeto de desenvolvimento.

Nosso desafio não é crescer menos, é crescer mais. Os que nos pedem atitudes heroicas no combate ao aquecimento global precisam dizer, também, como fazer isso crescendo aceleradamente e combatendo mais aceleradamente ainda a pobreza. Na prática, não na teoria.

Estranhamento

As declarações pejorativas e mal-educadas de Caetano Veloso sobre Lula deram ao presidente a oportunidade de sacar seu roteiro favorito: o de vítima de preconceito.

Improvável que cole. O modelito agressivo, depreciativo e autossuficiente -que alguns podem ler como arrogante- adotado por sua excelência desde que abandonou o "Lulinha paz e amor" não combina com o papel de vítima, que tantos dividendos políticos já lhe rendeu.

Esse mix de coitadismo e soberba pode, no máximo, gerar algum estranhamento.

No teatro da política, Lula precisa escolher sua máscara na peça. Não dá para querer todas. Ainda que hoje em dia o presidente demonstre alguma dificuldade para entender que o poder dele tem limites.

Demagogia

O discurso da oposição "em defesa dos aposentados" não fica de pé. Por acaso algum dos presidenciáveis tucanos, se eleito, vincularia o reajuste dos benefícios da Previdência à variação do salário mínimo? Óbvio que não.

É apenas um caso agudo de demagogia.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Uma Mostra ao estilo Ronaldo

Ricardo Calil

Se não contarmos a repescagem, a Mostra de São Paulo terminou nesta quinta-feira, o que significa que chegou a hora do balanço. O meu dificilmente poderia ser mais positivo. Vi mais bons filmes nessas duas últimas semanas do que em todo o resto do ano.

Para mim, foi uma Mostra ao estilo de Ronaldo em sua atual fase: só indo na boa, sem muita correria, sem desperdício de energia, mas com alta porcentagem de aproveitamento. Dos muitos chutes que dei, a maioria balançou a rede; alguns foram golaços, pouquíssimos erraram o alvo.

De canelada mesmo, só um: “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”, filme de despedida de Heath Ledger, que não ficou à altura do talento do ator. No campo do não cheira e nem fede, “Distante Nós Vamos”, tentativa de Sam Mendes (“Beleza Americana”) parecer indie, e o superestimado “À Procura de Eric”, uma Sessão da Tarde à moda socialista de Ken Loach.

Daí em diante, minha lista só tem filmes que vão do bom à obra-prima. Nesta última categoria, estão “Vencer”, épico político que comprova que o italiano Marco Bellochio virou mestre, e “35 Doses de Rum”, em que a francesa Claire Denis mostra que se tornou uma das diretoras essenciais da atualidade.

Dos cineastas consagrados, vieram o delicioso “Singularidades de uma Rapariga Loira”, em que o centenário Manoel de Oliveira revela ainda ter fôlego de garoto, e “Abraços Partidos”, obra menor de Almodóvar, mas ainda assim muito acima da média.

A Mostra nos brindou ainda com os dois melhores filmes até aqui de cineastas que decidiram se arriscar fora de sua zona de conforto: “O Fantástico Sr. Raposo”, belo passeio do americano Wes Anderson pelo mundo da animação, e “Soul Kitchen”, incursão do alemão Fatih Akin pela comédia.

De novos cineastas, duas boas surpresas: “Dente Canino”, fábula de humor nonsense do grego Yorgos Lanthimos, e “Os Famosos e Duendes da Morte”, estreia muito promissora em longas do brasileiro Esmir Filho, diretor do curta “Tapa na Pantera”.

No final das contas, esta edição da Mostra me ajudou a recuperar um tanto da minha fé no cinema, que andava abalada por um ano muito fraco do circuito comercial.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Grêmio x São Paulo é a “decisão” da hora! E os ventos uivantes do Minuano vão soprar para o Morumbi?


E como a gente lê, vê e ouve que tal jogo é “decisivo” e que tal rodada vai apontar o campeão “com certeza”, não é verdade?

Eu também já pitonizei essas “decisões” nos últimos 15 dias, como quase todo mundo da imprensa.

Apesar que estou apostando mesmo é no Galo, justamente no candidato que tem os jogos mais difíceis nessa reta de chegada.

Tanto que o Atlético Mineiro, o Galo mais Lindo do Mundo, tem sua próxima “decisão” domingo diante do Flamengo e perante 150 milhões de atleticanos no poleiro mais nobre do planeta.

Assim, Bruno, o “Adiantador do Brasil”, não poderá “rogerioceniar” desta feita, tantos serão os “fiscais”.

Como desta feita Aragão, Wright e Márcio Resende de Freitas “não estarão em campo”, por impossível.

Mas antes da “decisão” do Mineirão e da “decisão” de Flu e Verdão no Maracanã, teremos amanhã a “decisão” de Porto Alegre com o desmotivado Grêmio pegando o copeiro São Paulo.

E não é que o alagoano Souza, ex-falastrão do Morumbi, anda querendo “baruerizar”?

Mas a verdade é que o São Paulo está dando grande sorte ao pegar um Grêmio contundido, caído e cumpridor de tabela.

Normalmente teríamos amanhã um Olímpico lotadinho com 50 ou 60 mil gremistas colorindo de azul a chamada “La Bombonera do Sul”.

Pois não é que acredito só em 10 mil, mais uns dois mil tricolores paulistas, além da vitória do São Paulo?

Sabem por quê?

Pois quem perde Gre-Nal, o clássico de maior rivalidade do Brasil, precisa sempre de uns 30 dias pra se recompor psicologicamente.

Assim, dá São Paulo, para a tristeza de Galo, Periquito e Urubu.

Ah, e é jogo “decisivo”! (rs)