Ricardo Calil
Se não contarmos a repescagem, a Mostra de São Paulo terminou nesta quinta-feira, o que significa que chegou a hora do balanço. O meu dificilmente poderia ser mais positivo. Vi mais bons filmes nessas duas últimas semanas do que em todo o resto do ano.
Para mim, foi uma Mostra ao estilo de Ronaldo em sua atual fase: só indo na boa, sem muita correria, sem desperdício de energia, mas com alta porcentagem de aproveitamento. Dos muitos chutes que dei, a maioria balançou a rede; alguns foram golaços, pouquíssimos erraram o alvo.
De canelada mesmo, só um: “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”, filme de despedida de Heath Ledger, que não ficou à altura do talento do ator. No campo do não cheira e nem fede, “Distante Nós Vamos”, tentativa de Sam Mendes (“Beleza Americana”) parecer indie, e o superestimado “À Procura de Eric”, uma Sessão da Tarde à moda socialista de Ken Loach.
Daí em diante, minha lista só tem filmes que vão do bom à obra-prima. Nesta última categoria, estão “Vencer”, épico político que comprova que o italiano Marco Bellochio virou mestre, e “35 Doses de Rum”, em que a francesa Claire Denis mostra que se tornou uma das diretoras essenciais da atualidade.
Dos cineastas consagrados, vieram o delicioso “Singularidades de uma Rapariga Loira”, em que o centenário Manoel de Oliveira revela ainda ter fôlego de garoto, e “Abraços Partidos”, obra menor de Almodóvar, mas ainda assim muito acima da média.
A Mostra nos brindou ainda com os dois melhores filmes até aqui de cineastas que decidiram se arriscar fora de sua zona de conforto: “O Fantástico Sr. Raposo”, belo passeio do americano Wes Anderson pelo mundo da animação, e “Soul Kitchen”, incursão do alemão Fatih Akin pela comédia.
De novos cineastas, duas boas surpresas: “Dente Canino”, fábula de humor nonsense do grego Yorgos Lanthimos, e “Os Famosos e Duendes da Morte”, estreia muito promissora em longas do brasileiro Esmir Filho, diretor do curta “Tapa na Pantera”.
No final das contas, esta edição da Mostra me ajudou a recuperar um tanto da minha fé no cinema, que andava abalada por um ano muito fraco do circuito comercial.
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